Pesquisar este blog

Você sabe qual a taxa de inflamação celular do seu corpo? Faça o teste

sábado, 15 de setembro de 2018

Festa do Rosário: Ato de resistência da cultura negra


Márcio Almeida

     Com o legado científico de Carlos Chagas, a Festa do Rosário é a referência de maior importância cultural de Oliveira. A historiadora fluminense e doutora Fernanda Pires Rubião, na tese As lutas políticas dos congadeiros da cidade de Oliveira (2013) assinala que a análise sobre o Congado parte da realização da festa popular como forte caminho que permite a construção de identidade dos negros, a entender os conflitos sociais, os diálogos que se operam entre os “de baixo” e os “de cima”, além de constituir num canal de reivindicação política para os agentes que a praticam. Sabe-se que o 1º Estatuto da Irmandade de N.S. do Rosário data de 1860, que esse já regia o espaço de autonomia dos escravos, criando entre eles laços de solidariedade e sociabilidade. Através da festa os congadeiros, que hoje são cerca de 900 componentes, rememoram e recriam suas origens africanas, homenageiam seus santos de devoção, e coroam seus reis e rainhas, com destaque para o Rei Congo, representante de Chico Rei. Angel Rama, citado pela pesquisadora, considera que a cidade letrada “compunha o anel protetor de poder” de Oliveira, determinado por religiosos, administradores, educadores, escritores, profissionais liberais, “todos que manejavam a pena”, e esta em Oliveira era formada pelos agentes eclesiásticos, o poder público e o jornal GAZETA DE MINAS que determinavam as normas em relação aos participantes da festividade. A delimitação da pesquisa de Rubião se dá com os chamados Leonídios - Antonio Eustáquio e Pedrina dos Santos, filhos do antigo capitão Leonídio dos Santos, cuja escolha se deu por 3 fatores: “a diversidade de ternos que saem do quartel desses irmãos (moçambique de N.S. das Mercês, o de N.S. do Rosário e congo de N.S. do Rosário); a forte influência do significado político da festa e por seus familiares participarem há muitas gerações dos festejos congadeiros.” Em 1929, a antiga igreja do Rosário foi demolida e em seu lugar ergueu-se a igreja de N.S. de Oliveira, fato que levou os congadeiros a reestruturarem sua festividade diretamente relacionada aos embates com os representantes eclesiásticos e a Prefeitura Municipal. A propósito, matéria publicada na GAZETA DE MINAS em 20 de outubro de 1918 destaca haver então contenda entre a Festa do Rosário e a diocese, apesar de o festejo ser valorizado e respeitado pela população.
     Em 1931, a festa foi realizada, não obstante sua proibição pelas “Determinações das Conferências Episcopais” de 1927, o mesmo tendo ocorrido em 1945, sem contudo considerar a tradição com preconceito. Fato é que a festa deixou de acontecer durante o período de 1900 a 1950, não se podendo, no entanto, diz Rubião, precisar em que anos foi a festa paralisada. O que se afirma é que a suspensão do festejo se deu “pelo medo da repressão policial, originária da ordem diocesana”. Mesmo sob proibição, a festa voltou em 1950, mediante licença conseguida pelo capitão Geraldo Bispo dos Santos, um baluarte histórico da Congada em Oliveira, hoje representado pelos netos Geraldo e Heloísa dos Santos. Em 1951, o vigário monsenhor Leão Medeiros Leite publica na GAZETA DE MINAS artigo no qual diz que a Festa do Rosário deveria ter ficado restrita ao tempo do cativeiro, “num ambiente de negros escravos e de gente simples e ignorante.” A igreja católica queria se afastar literalmente da Festa do Rosário. A primeira referência da realização da festa com missa campal deu-se em 1964, na Praça Manoelita Chagas. Na década de 1970, a missa era celebrada na Igreja dos Passos, mas, segundo a capitã Pedrina dos Santos, “não havia elementos que ajudassem a lembrar da história dos negros do Rosário.” Na década de 1980, a solenidade era realizada do lado de fora da igreja do Alto S. Sebastião, em cujo bairro mora a maioria dos congadeiros. Atualmente, diz a pesquisadora, o palanque na Praça XV “representa o altar da antiga igreja.” Na década de 1990, a missa passou a ser definitivamente celebrada no interior das igrejas, agora com novos ritos, celebração com suas próprias músicas, instrumentos e danças, caracterizada como Missa Conga e a presença do Lamento Negro, sob iniciativa da capitã Pedrina dos Santos. É preciso lembrar que sempre foi conflituosa a relação da igreja católica com os congadeiros, inclusive para o trabalho de pesquisadores na obtenção de informações sobre a festividade. O bispo dom Miguel, afirma Rubião, alegou em entrevista não haver na documentação da igreja nada sobre a relação da igreja com o Congado. Segundo os congadeiros, porém, o espaço da antiga igreja do Rosário lhes foi “roubado.” No século XXI, demarca Rubião, a GAZETA DE MINAS utiliza o Congado para denunciar o mito da democracia racial e o segregacionismo dos participantes da festa, registrando a questão em seu caráter político e contestatório vivenciado por negros e congadeiros. Por ser mais flexível e humanitária, digna e justa, razoável e salutar, hoje a igreja católica se posiciona de modo definitivo sobre a Festa do Rosário,que afinal tem caráter religioso, cultural e histórico. E talvez seja, no gênero - com todo mérito - a maior manifestação folclórica do país.

Márcio Almeida
Publicado no jornal Gazeta de Minas, pagina 2, em 02 de setembro de 2018.

MAIS Como está sua saúde? Faça um teste agora
MAIS Tudo sobre o Congado de Oliveira

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...