terça-feira, 15 de agosto de 2017

Milagre marcou a origem de Nossa Senhora de Oliveira

Título da Virgem Maria está ligado ao apóstolo São Tiago


     O texto a seguir, de autoria do monsenhor Leão Medeiros Leite, foi publicado na Gazeta de Minas, edição de 26 de março de 1950, com o título “Nossa Senhora da Oliveira - Origem do nome e devoção da nossa Padroeira”. O jornal Gazeta de Minas reproduziu na íntegra em sua edição de 13/08/2017, por sua importância histórica.

Imagem antiga de Nossa Senhora de Oliveira
venerada no altar-mor da igreja Matriz
     “Certamente vai interessar a todos os oliveirenses, quer sejam ou não devotos de Nossa Senhora ou mesmo sejam ou não católicos, o presente trabalho que vale por uma pesquisa histórica mui preciosa.

    São dados colhidos de uma Conferência do Sr. Corrêa Varela ao microfone da Rádio Vera Cruz, falando de um passado, onde a história nacional portuguesa se confunde com a implantação da Fé católica, fenômeno este que se repetiu também na história da nacionalidade e mais perto de nós, na história desta cidade.

    A vida do povo português como a da gente brasileira, ou melhor, a civilização lusa e luso-brasileira ou simplesmente brasileira, se formou sobre a influência da inspiração da Fé e se plasmou na unidade religiosa e cívica, de modo a ser o cerne da própria nacionalidade.

    Sente-se emoção de alegria invulgar ao contacto com os feitos, fatos e fastos da nossa história, que falam tão eloquentemente da harmonia e sublimidade da Religião e do Patriotismo, formando nacionalidade e projetando-a ao relevo dos grandes acontecimentos universais e polarizando-a na trajetória das glórias das conquistas e nas esperanças do porvir. Nossa Senhora da Oliveira não é somente marco de uma nacionalidade que surgiu, como também padrão de uma verdadeira Fé e garantia da unidade de um povo.

    É o que nos revela a origem da devoção a Nossa Senhora da Oliveira. Isto nos alegra sobremodo, e tanto, que nos sentimos felizes por estamos ligados — passado e presente — tão diretamente no mesmo elo central dos sentimentos comuns: Maria Santíssima. Por ela nos unimos aos antepassados e vivemos as mesmas alegrias e esperanças, a mesma Fé.

    Nos dados abaixo veremos bem perfeitamente a honra que nos é conferida patriótica e ortodoxamente — o legado ancestral e tradicional da devoção à Virgem Mãe de Deus, sob o título tão curioso e interessante com que a veneramos: N. S. da Oliveira.

    “Nossa Senhora da Oliveira, padroeira de Guimarães, é talvez a devoção mais antiga de Portugal. Quando Portugal nasceu já Ela existia há muitos séculos e foi perante o seu altar que o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, se armou para ir combater os cinco reis mouros nos campos de Ourique e fundar a nacionalidade portuguesa. Foi, pois, sob a sua proteção, que se fundou Portugal. Mas, de onde veio a Nossa Senhora da Oliveira? É este o assunto desta descrição. Quando S.Tiago Apóstolo, 42 ou 46 anos após a  Morte do Mestre, Jesus Cristo, veio até a península propagar a sua doutrina,desembarcou num dos portos da Galisa.

    Essa província naquele tempo, vinha até as margens do Rio Douro. S. Tiago deve ter desembarcado num dos portos minhotos porque se dirigiu diretamente a Braga. Nesta cidade juntou nove discípulos, todos minhotos a quem deu instruções e indicou vários lugares para que fossem espalhar a doutrina de Deus. Ele, S. Tiago, partiu para Saragoça, na Hespanha, mas antes erigiu em Braga um altar onde colocou uma imagem de Nossa Senhora e sagrou o primeiro bispo primaz, São Pedro de Rates, um herege que veio com ele e por ele é convertido à Fé Cristã.

    Em Saragoça levantou novo altar à Virgem, a que chamou Nossa Senhora do Pilar. E, regressando a Portugal, passou por Guimarães, onde encontrou um templo profano dedicado à deusa Ceres. Destruiu os ídolos desse templo, purificou-o colocando lá uma imagem da Virgem a que deu o nome de Santa Maria. Todas estas imagens foram trazidas por ele do Oriente e foi perante esta que, de Guimarães que batizou S.Torquarto. Esse Templo por ele dedicado à Santa Maria, foi depois, pelo povo dedicado ao próprio S. Tiago, e mais tarde, muito mais tarde à Nossa Senhora de Guimarães, que foi o nome que tomou a imagem por ele lá colocada.

    Essa imagem, ali se conservou até o ano de 417, ano em que os álamos, os suevos e outros povos bárbaros invadiram a península, destruindo tudo quanto dissesse repeito ao cristianismo e, para que essa não fosse destruída, o então arcebispo de Braga, D. Pancrácio, ordenou que a escondessem, escolhendo para isso um local ali perto, chamado Monte Latito, que hoje tem dois nomes, o de monte ou montanha de Santa Maria e do Largo, nome este derivado de Latito. No tempo do Conde D. Henrique, era essa Nossa Senhora de Guimarães, a Virgem de maior devoção entre o Douro e o Minho, ou seja, em todo o condado Portucalense e terras da Galisa, de tão grande devoção, que a Ela se deve o não ter sucumbido pelo menos decaído em muito a cidade de Guimarães, quando D. Afonso Henriques mudou a capital do País para Coimbra. A influência de romeiros vindos de toda parte, manteve de pé a importância da antiga Capital. Nossa Senhora da Oliveira, ou melhor N. Senhora de Guimarães, começou a ser venerada como Nossa Senhora da Oliveira, no reinado de Afonso IV. É curiosa a lenda que deu a causa da mudança do nome.

    Quando este rei ganhou a batalha do Salado, tinha vindo antes a Guimarães implorar a proteção da Virgem e depois da vitória, em agradecimento, mandou erigir-lhe um padrão ou cruzeiro em frente à Igreja onde estão sob a cúpula de abóboda de pedra, Jesus crucificado e uma imagem de Nossa Senhora chamada de Vitória. Diz-se também que fora um devoto da Virgem que mandara vir da Normandia este cruzeiro. Ou de uma forma ou de outra, o que importa é o seguinte: quando foi inaugurado, organizou-se uma procissão incorporando-se nela o andor de Nossa Senhora.

    Ao passar diante do padrão parou a procissão ficando a Virgem de frente voltada para o mesmo, e todos viram com assombro, uma oliveira seca desde há muito ali estava, começar a reverdecer, enchendo-se de folhas e de frutos. Foi este fato atribuído a um milagre de Nossa Senhora e desde este dia (08 de setembro de 1342, Natividade de Nossa Senhora) é que existe Nossa Senhora da Oliveira, devido a este milagre. A imagem é a mesma trazida por S. Tiago Apóstolo há quase dois mil anos.

    O templo atual, ao lado da Colegiada que fundou Afonso Henriques, foi reconstruído por D. João I porque também esse rei atribuiu à Nossa Senhora da Oliveira a sua grande vitória na batalha da Aljubarrota. Era tal a devoção desse rei por essa Virgem que, terminada a batalha foi a pé, de Aljubarrota à Guimarães, ajoelhar-se a seus pés e fazendo-lhe uma oração muito sentida, da qual constam as seguintes palavras: “Senhora, eu confesso e quero que todos saibam que, por Vossa virtude somente, venci esta batalha.” Colocou depois as armas sobre o altar e disse: “Vós, Senhora, m’as destes, Vós as tomai e guardai”.

    Depois disso, D. João I nunca entrava num empreendimento sem pedir a proteção de Nossa Senhora da Oliveira. Ia antes a Guimarães, colocava a sua armadura sobre o altar; orava por algum tempo e pedia licença para se retirar. E quando regressava, vitorioso, fosse do ponto que fosse, longe ou perto, ao pisar terra portuguesa, apeava-se do cavalo e partia a pé, até Guimarães, a ajoelhar-se perante Nossa Senhora da Oliveira. Foi assim de Castela de Tuí e até no regresso da conquista de Ceuta. E ainda de Vale de La Mulla (180Km)”. Esta história nos comove.

    Ufanamo-nos dela. Conforta-nos. A mesma convicção religiosa, a mesma devoção, o mesmo carinho filial dos primeiros cristãos são a mesma coisa, entre nós, dezenove séculos após.

    Oliveira liga-se, pois, por N. S. da Oliveira aos primórdios do Cristianismo, pela devoção à Virgem Maria. Que perenidade de doutrina e de verdade!

    Feliz nossa cidade se mantiver sempre viva a chama do amor a N. Senhora sob o título tão nosso querido — Nossa Senhora da Oliveira — que certamente é influência da civilização portuguesa em terras do Brasil.


Monsenhor Leão Medeiros Leite. Publicado no jornal Gazeta de Minas de 26/03/1950 e 13/08/2017.


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