domingo, 3 de novembro de 2013

A negatividade das notícias

Valcapelli


"Neste ano de 2011, tive a oportunidade de participar da Ação Global Nacional, que ocorreu no Parque da Juventude, bairro do Carandiru, São Paulo. Pude presenciar mais de mil voluntários dedicando um dia das suas vidas em benefício da população. Segundo informações veiculadas pela emissora, foram atendidas 90 mil pessoas. Essas ações ocorreram simultaneamente na maioria dos estados brasileiros, proporcionando inúmeros benefícios ao povo de todo o país.

O clima era de paz, havia uma atmosfera de gratidão e solidariedade. Quem trabalhava na Ação demonstrava disposição e boa vontade, e as pessoas que procuraram os serviços estavam felizes. Presenciar tudo aquilo foi uma experiência gratificante para mim.

Enquanto tantas coisas boas aconteciam naquele sábado, os noticiários televisivos transmitiam eventos ruins, tais como: uma quadrilha do sul do país que roubou caixas eletrônicos; um carro que despencou numa depressão do quintal da casa, etc. A imprensa focalizou as ocorrências negativas, que envolveram apenas algumas pessoas. Tais fatos contrastavam com o que eu havia presenciado naquele evento que envolveu milhares de pessoas e só foi noticiado por aproximadamente trinta segundos e por uma só emissora de televisão. As demais redes nem o citaram. 

Os eventos negativos são transmitidos e retransmitidos inúmeras vezes, bombardeando as pessoas que permanecem em suas casas. Isso propaga uma idéia de temor e negatividade, contagiando centenas de milhares de telespectadores, ao passo que as boas ações passam praticamente despercebidas pela grande maioria da população.

A televisão é uma espécie de janela para o mundo, no entanto, ela aponta para uma direção que não o resume. A todo momento acontecem coisas boas, mas infelizmente elas não se propagam.
Na ocasião do casamento do príncipe da Inglaterra, ocorrido recentemente, eu estava sentado numa padaria tomando o café da manhã, de frente a uma televisão. Uma cena forte estava sendo veiculada na emissora; tratava-se mais uma vez de um caixa eletrônico estourado, uma cena de violenta explosão, mas a destruição abrangia apenas alguns metros de diâmetro. A forma como foi captada a imagem fazia parecer um imenso campo de guerra. Imediatamente, essa imagem foi congelada e substituída pela cena de um corredor enorme com um suntuoso tapete vermelho de uma igreja da Inglaterra preparada para a entrada da noiva, a plebéia que se tornaria princesa.

Naquele momento, lembrei-me da comparação que uma amiga havia feito, há alguns anos, sobre a diferença entre o Brasil e a Suíça. “No Brasil” dizia ela, “as coisas ruins são noticiadas maciçamente: assaltos, criminalidades e outras barbaridades”. “Na Suíça não é assim; quando eu morava lá, saía de manhã e passava numa região onde ficavam muitos bancos, e via caixas eletrônicos que eram estourados durante a noite. Os jornais daqueles dias veiculavam os encontros dos representantes políticos, os acordos firmados para beneficiar a população. Hoje em dia, os terminais eletrônicos dos bancos Suíços são preservados e permanecem intactos”.

Já no Brasil, quanto mais um assunto é noticiado, mais aumenta a incidência de casos. Parece que os absurdos não acabam nunca. De fato, eles acontecem e sempre aconteceram, mas nunca foram noticiados com tanta frequência nem apavoraram tanto a população, que fica olhando o mundo pela “janela televisiva”.

Vale lembrar que o mundo não é só esse campo de tragédia onde verdadeiras batalhas são travadas para se permanecer vivo. O mundo também é um “jardim” onde ocorrem encontros, pessoas são felizes, estão se relacionando, namorando; existe amizade e não apenas traição, vingança e jogos de interesses como nas tramas das novelas.

Talvez pareça assustador viver no mundo que a televisão [mostra], mas interagir com a população em ocasiões agradáveis, participar ao vivo dos fatos, isso sim resume a mágica experiência da vida. Quando presenciamos os acontecimentos bons, vibramos com eles, manifestamos os sentimentos mais agradáveis da vida, que “explodem do peito” numa sensação de felicidade, que poderia ser expressa com esta frase: “Como é bom viver neste mundo”."


Por Valcapelli. São Paulo, junho de 2011

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