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domingo, 26 de agosto de 2012

Lei burra, poder excludente, país injusto


Márcio Almeida

    O dia começa de manhã, mas legisladores não sabem disso. É de pequenino que se torce o pepino, mas os legisladores também desconhecem essa realidade. Eles podem até entender de leis, mas não sabem nada da vida. A lei que impede o trabalho de maiores de 16 anos de idade no apoio ao estacionamento rotativo não é apenas absurda, mas de uma burrice madrasta do diabo. Juristas convivem o ano inteiro com processos cujos problemas sempre envolvem a família e, em grande parte, os excessos de jovens. Estes, por estarem desempregados, usam o precioso tempo no consumo de drogas, para cometer crimes, engravidar menores, vadiar, encher a cara, zoar. E transferem para os pais, que matam um tigre por dia, pior, com as unhas, para lhes dar de comer, vestir e honrar compromissos. Juristas passam batido nessa questão social. Fome, miséria, desemprego, ignorância, falta de oportunidade, essas “coisas” de pobres não existem na consciência dos juristas.
    Muitos desses juristas com toda certeza trabalharam desde crianças para poder estudar. Suavam muito durante o dia para pagar faculdade à noite. Muitos ajudaram em casa com o salário do primeiro emprego. Muitos chegaram até a ser seres humanos e fizeram por instituições em defesa de jovens desamparados. É certo que alguns dos juristas contaram com todo orgulho para seus alunos, filhos e netos que já passaram grandes dificuldades na vida, porque seus pais não podiam bancar seus estudos, mas que venceram por idealismo, pela persistência, pela fé em Deus. Muitos juristas, contudo, nem acreditam em Deus. Todos, no entanto, se gabam de terem vencido pelo trabalho, de onde veio o mérito de terem sido bons profissionais.
Vocês acham mesmo que quem não se acostumar a trabalhar desde tenra idade vai dar alguma coisa na vida? Vai ajudar este país a ser uma nação?
    É para esses legisladores e juristas afortunados, a quem a vida deu a oportunidade de não serem medíocres, que dirijo os questionamentos a seguir: ter sido engraxate, vendido garrafas, livros e jornais velhos aos 12 anos de idade fez de mim um cidadão indigno da sociedade? A lei que vocês inventaram agora, vai se estender para guardadores de carro, flanelinhas, retireiros, estagiários? Por que o jovem de 16 anos pode ser jogador de futebol, mas não pode se ocupar em vender talonário para Área Azul? Por que, Excelências dos paradoxos, crianças e jovens podem trabalhar em novelas e filmes com contratos milionários, mas jovens com amplas carências em casa não podem ajudar – por uma ninharia – no ordenamento urbano de Oliveira e dos outros 5 mil e tantos municípios do país? Os senhores doutores das leis alguma vez já se perguntaram por que a maioria dos detentos no Brasil é constituída por jovens na faixa etária entre 18 e 27 anos de idade? Quando Vossas Excelências vêem suas filhas em casa, cheias de carinho, protegidas até contra maus pensamentos, já pensaram por que a quase totalidade de prostitutas do país é composta por meninas que ainda ontem mesmo brincavam com bonecas de R$1,99? Alguma vez vocês já se deram conta das razões de a maior parcela de absenteísmo no Brasil se dar com a rejeição do jovem votar por causa de sua decepção com a classe política e atos podres dos poderes constituídos? Por acaso já se perguntaram por que grande parte dos jovens do Brasil sofre depressão e muitos cometem suicídio?
    Já se perguntaram para que serve o Fundo de Amparo ao Trabalhador? Para que serve o ProJovem? O estágio remunerado? A Educação de Jovens e Adultos? O programa Protagonismo Juvenil? Os cursos de qualificação profissional dados pelas instituições do 5 S (Senac, Sesc, Senai, Sebrae e Sesi)? A qualificação mantida pelas Associações Industriais e Comerciais dos municípios? Vocês acham ser possível exercitar cidadania sem trabalho? Acham justo esticar o longo período de 35 anos de trabalho para ter direito a uma aposentadoria cancerosa e sem $ suficiente para cuidar da doença? Vocês pelo menos desconfiavam de que 66% dos jovens precisam trabalhar porque todo seu ganho, ou boa parte dele, complementa a renda familiar?
    A próxima vez que vocês forem passear na Europa, reparem nas instituições e empresas que estimulam a participação dos jovens em projetos de pesquisa, seja científica ou humanitária. Façam isso, também, nos Estados Unidos. Leiam o livro Startup Brasil, de Pedro Mello, para conhecerem quando é que fundadores de empresas como o Boticário, Cacau Show e Buscapé começaram a trabalhar. Leiam também a bela história do ex-vice presidente José de Alencar, que começou em criança. Porque aqui, mas vocês não sabem, os jovens são apontados como o grupo mais afetado pelo aumento do nível de desemprego e pelo processo de precarização do mercado de trabalho. Não é por nada, não, Excelências, mas a atitude de vocês é digna dos filhos que vocês têm? É digna de um país que quer crescer? É digna de um país que respeita os jovens? Vocês acham mesmo que quem não se acostumar a trabalhar desde tenra idade vai dar alguma coisa na vida? Vai ajudar este país a ser uma nação? Pensem em Deus, quando forem fazer leis. Porque Deus, sim, é a lei. O resto somos apenas os que nesse país têm um prazer quase sexual de não cumpri-las, como diz o Boi, do Oliveira Clube. E com razão.

Márcio Almeida
Publicado no jornal Gazeta de Minas, pagina 2, em 19 de agosto de 2012

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